O gargalo de um projeto de automação nunca é o robô
Por: Hugo Ferreira | Diretor da PMA Automação Industrial · Presidente da Câmara de Tecnologia e Inovação da ACIC
Depois de alguns anos integrando células, cheguei a uma conclusão que uso como critério de trabalho: todo projeto de automação que dá errado erra na mesma etapa, e não é a etapa que as pessoas discutem. Discute-se marca de robô, número de eixos, se vale cobot ou braço industrial. O projeto fracassa antes disso, na especificação.
É uma afirmação incômoda para quem vende equipamento, inclusive para mim. Mas ela se sustenta na observação: quando um projeto não entrega o tempo de ciclo prometido, raramente é porque o robô era lento. É porque ninguém mediu o processo manual direito antes de converter para automático.
O que acontece quando a especificação é fraca
Uma especificação fraca não dá erro imediato. Ela dá erro no comissionamento, quando já se gastou tudo.
O padrão é sempre parecido. A empresa decide automatizar uma operação. Alguém mede o tempo de ciclo atual com cronômetro, em três peças, num dia bom, com o operador mais experiente. Esse número vira a referência. O integrador dimensiona a célula para bater aquele número com alguma folga.
Na produção real a peça chega com variação dimensional que ninguém documentou, o dispositivo precisa de ajuste a cada troca de lote, e a operação que levava quarenta segundos na medição leva cinquenta e cinco na média do turno. A célula atende à especificação e não atende à fábrica.
Ninguém mentiu. O que faltou foi descrever o processo como ele é, e não como ele é no melhor dia.
Por que a tecnologia leva a culpa
Quando o resultado decepciona, a conclusão interna costuma ser “automação não funciona para a nossa peça”. É uma conclusão confortável, porque não responsabiliza ninguém de dentro. E é quase sempre errada.
A tecnologia de robótica industrial é madura há décadas. Um robô de seis eixos repete posição com precisão de centésimo de milímetro, milhões de ciclos, sem variar. Se o resultado variou, a variação entrou por outro lugar: a peça, o dispositivo, o processo anterior ou a definição do que se esperava.
Isso muda onde vale gastar atenção. Escolher entre dois fabricantes de robô ocupa semanas de reunião e muda pouco o resultado. Medir o processo durante duas semanas antes de especificar muda tudo e quase ninguém faz.
O que uma especificação boa contém
Não é documento longo. É documento específico.
Tempo de ciclo medido ao longo de turnos inteiros, não em amostra. Variação dimensional real da peça de entrada, com os extremos, não com a peça padrão do laboratório. Frequência de troca de modelo e tempo de setup atual. Taxa de refugo por causa, separando o que é processo do que é variação humana. O que acontece com a peça antes e depois da operação que será automatizada.
Esse último item é o mais esquecido. Automatizar uma operação no meio de uma linha manual costuma deslocar o gargalo em vez de eliminá-lo. A célula fica ociosa esperando alimentação, e o indicador geral não melhora, o que gera a sensação de investimento perdido mesmo com a célula funcionando perfeitamente.
Onde isso leva
Se o determinante é a especificação, a decisão de contratar muda de critério. Em vez de perguntar quem tem o menor preço por célula, a pergunta passa a ser quem vai investir tempo entendendo o processo antes de propor.
Levantamento presencial custa dinheiro e aparece na proposta. Uma proposta feita por telefone, sobre um desenho recebido por e-mail, sai mais barata. E é mais barata porque transferiu para o cliente o risco de estar errada.
Isso vale para a PMA como vale para qualquer integradora. Quando fechamos preço sem levantamento sério, o número é estimativa; quando o escopo cresce no meio do caminho, a conversa difícil é inevitável. Aprendi a preferir perder a proposta na fase de levantamento a ganhar e descobrir o problema no comissionamento.


