O ano em que a célula começa a custar
Por: Hugo Ferreira | Diretor da PMA Automação Industrial · Presidente da Câmara de Tecnologia e Inovação da ACIC
A manutenção de célula robotizada quase não aparece em proposta comercial, e é previsível que não apareça: ela trata do período em que o integrador já foi embora e o problema é do cliente. Escrever sobre isso contraria o interesse imediato de quem vende, e é justamente por isso que vale escrever.
Célula robotizada tem um padrão de custo em formato de banheira. Alto no início, por causa do investimento. Baixo e estável por dois ou três anos. E então começa a subir.
O que acontece no terceiro ano
A primeira peça cara quebra. Reduto de eixo, cabo interno do braço, fonte de solda. Não é defeito: é vida útil. O valor costuma surpreender quem comprou achando que robô não dá manutenção.
O contrato de assistência venceu. Em geral o primeiro ano é garantia, o segundo ainda tem relação próxima. No terceiro, ninguém renovou, e a primeira parada vira urgência com fornecedor que não tem obrigação contratual.
A pessoa que sabia operar saiu. Esse é o custo mais caro e o menos contabilizado. O técnico treinado no comissionamento foi promovido, trocou de empresa ou mudou de turno. Quem ficou sabe ligar e rodar o programa, não sabe recuperar a célula de uma parada.
A peça nova precisa de reprogramação. Engenharia lançou variante e ninguém internamente sabe programar o robô. Ou se paga hora de integrador para cada modelo novo, ou a célula vai ficando restrita ao que já fazia.
A obsolescência que chega antes
Há um segundo relógio correndo, mais silencioso. Controlador de robô tem ciclo de vida de cerca de dez a quinze anos, e o fabricante descontinua suporte antes de o equipamento parar de funcionar.
Quando a peça de reposição sai de linha, as opções encolhem: mercado de usado, recondicionado ou retrofit do controlador, que custa uma parcela relevante de um robô novo. Uma célula mecanicamente sadia pode virar inviável por causa de uma placa.
Isso deveria entrar na decisão de compra, e entra pouco. Perguntar ao fornecedor qual o ciclo de vida anunciado daquele controlador e desde quando o modelo está no mercado muda o cálculo de prazo do investimento.
O que reduz esse custo, e não é equipamento
Quatro coisas, todas baratas comparadas ao custo que elas evitam.
Backup de programa, fora da célula. Parece óbvio e falha com frequência. Um controlador que perde a memória sem backup transforma uma parada de horas em uma parada de dias.
Documentação as-built exigida no aceite. Diagrama elétrico atualizado, lista de peças com código de fabricante, manual de operação. Sem isso, no dia em que você precisar de outro fornecedor, e esse dia chega, ele vai cobrar para descobrir o que já existia documentado.
Estoque mínimo de item crítico. Nem tudo: as duas ou três peças com prazo de reposição longo. O critério é o custo da hora parada, não o valor da peça.
Duas pessoas treinadas, não uma. A maior fragilidade de célula no Brasil é depender de um único funcionário. É a única das quatro que depende de decisão de RH, e é a que mais falta.
Por que isso é responsabilidade de quem vende
Integrador que entrega a célula funcionando e some cumpriu o contrato. O cliente, dois anos depois, tem um ativo caro que degrada. E conclui que automação não compensa.
Essa conclusão prejudica o setor inteiro, inclusive quem não participou daquele projeto. A densidade robótica brasileira fora do automotivo é de treze robôs para cada dez mil trabalhadores, e uma das razões é a quantidade de empresas que tentaram uma vez, se decepcionaram e não voltaram.
Discutir custo de ciclo de vida na proposta aumenta o valor percebido do projeto e torna a venda mais difícil. Também é o que separa fornecedor de parceiro técnico, e, a médio prazo, é o que faz o cliente voltar para o segundo projeto.


