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Tarifa dos EUA sobre produtos brasileiros: automação não paga 37,5%

Tarifa dos EUA sobre produtos brasileiros: automação não paga 37,5%

Por: Hugo Ferreira | Diretor da PMA Automação Industrial · Presidente da Câmara de Tecnologia e Inovação da ACIC

A tarifa dos EUA sobre produtos brasileiros chegou a 37,5% em julho, e a pergunta que ouço de quem fabrica é se dá para compensar com produtividade. A resposta é não, e a conta mostra por quê. Mas a mesma conta mostra onde a automação ajuda, e é dessa parte que vale falar.

Desde 22 de julho de 2026, a Seção 301 aplica 25% adicionais sobre parte da pauta brasileira. Dois dias depois entrou uma segunda medida, também da Seção 301, sobre trabalho forçado: 12,5% para o Brasil e para outras 40 economias, 10% para mais 19. No mesmo produto, as duas se somam. Pelo cálculo do MDIC, sobre a base de 2024, US$ 6,6 bilhões pagam as duas, e US$ 9,3 bilhões pagam pelo menos uma.

A CNI chega a outro número: US$ 12,4 bilhões atingidos, dos quais US$ 10,8 bilhões a 37,5%. A diferença não se explica só por um contar o que o outro não conta. Mesmo no grupo das duas sobretaxas, a estimativa da CNI é 64% maior. Não tenho como dizer qual está certa. Uso a do MDIC por ser a fonte oficial e por ser a menor.

Até onde consegui apurar, as alíquotas seguem as mesmas em outubro. A Corte de Comércio Internacional dos EUA ouviu em 30 de setembro a contestação da tarifa de trabalho forçado, movida por empresas e pelos procuradores-gerais de 25 estados americanos, e não havia decisão até o fechamento deste texto. O Brasil abriu disputa na OMC. Ou seja: 12,5 pontos dependem de um tribunal, e ninguém sabe quando nem como ele decide.

O que a tarifa dos EUA sobre produtos brasileiros atinge em Minas

Minha primeira versão deste texto dizia que Minas Gerais estava no centro do alvo, por causa da siderurgia e das autopeças. Estava errado, e os dois críticos que leram o rascunho apontaram o mesmo erro.

Aço e boa parte das autopeças estão na Seção 232, as tarifas setoriais que os EUA aplicam, em regra, a todos os países, e que segundo o MDIC não se somam às da 301. Ferro fundido ficou fora das sobretaxas. É um problema real e mais antigo, com outra lógica: ali o Brasil disputa em pé de igualdade com quem também paga a 232.

Quem paga 37,5% é outra lista: máquinas e equipamentos, madeiras, óleos, calçados, móveis, confecções. Para a indústria mineira, o efeito aparece no segundo elo, no fornecedor de usinagem, caldeiraria e componentes que vende para o fabricante de máquinas que exporta.

Quanto a automação teria de entregar

Se o exportador quisesse que o importador americano pagasse o mesmo de antes, teria de cortar 27,3% do preço. É o pior caso, e não é o caso relevante, por dois motivos.

O primeiro é que o concorrente também paga. Quem disputa o mesmo cliente a partir de uma economia tarifada em 12,5% leva uma desvantagem menor: para empatar com ele, o corte necessário é de 18,2%.

O segundo é que a tarifa não recai inteira sobre o exportador. Os estudos sobre as tarifas americanas de 2018 e 2019 encontraram repasse quase integral ao preço pago pelo comprador nos EUA. Quanto fica de cada lado depende de o cliente ter alternativa. Em máquina sob encomenda, às vezes não tem. Em peça de catálogo, quase sempre tem.

Agora, de onde sairiam esses 18,2%. Vou usar uma estrutura de preço que é premissa minha, não dado: material 55%, custo de conversão (mão de obra, energia, manutenção, depreciação) 35%, margem 10%. Com a margem intacta, seria preciso cortar 52% do custo de conversão. Zerando a margem, 23%.

Cortar metade do custo de conversão da planta inteira não é coisa que projeto de automação faça. Automação reduz custo numa operação, numa célula, numa linha. Quem já fez a conta do custo total de propriedade de uma célula robotizada sabe que o ganho existe, mas vem localizado e dilui no custo total da peça.

E os 23% só aparecem se a empresa abrir mão do lucro inteiro. Isso não é estratégia, é prazo.

Onde a automação ajuda

Ajuda menos a ficar no mercado americano e mais a sair dele.

Redirecionar exportação significa vender para clientes que já têm fornecedor, em volumes menores e com exigências próprias de documentação. Na prática, isso pede troca rápida de produto, lote pequeno sem perder custo, inspeção que gera registro e rastreabilidade por peça. Uma linha dedicada a um único item de alto volume para um único comprador é exatamente o ativo que perde valor quando esse comprador some.

Também ajuda no mercado interno, e aqui tenho de ser honesto: esse argumento existe com ou sem tarifa. Se o projeto só fecha porque há tarifa, ele não fecha.

O que eu retirei do texto

A primeira versão terminava recomendando investir agora, para estar pronto quando a tarifa cair. Retirei, por três razões.

Ela contradizia a conta que vinha antes: se a automação não paga a tarifa, a tarifa não é motivo para automatizar. Era a conclusão que me convém, porque eu vendo automação. E ignorava o básico da decisão sob incerteza: quando o cenário pode mudar por decisão de tribunal, esperar tem valor, e investimento irreversível perde.

Há ainda um efeito de volume. A economia de um projeto de automação é por peça. Se o volume exportado cair 25%, o mesmo projeto leva 33% mais tempo para se pagar. Com o custo de capital que temos, como já escrevi sobre juros altos e investimento industrial, isso basta para matar um projeto que estava no limite.

O que eu recomendo é mais modesto. Calcular o payback em dois cenários, com a tarifa permanente e com ela revogada, e só seguir se o projeto fechar nos dois. Preferir o investimento que serve a mais de um produto e mais de um cliente. E não dimensionar capacidade pelo pedido americano de 2024.

O resto não se resolve no chão de fábrica. Câmbio, crédito à exportação, drawback, a negociação e a disputa na OMC estão fora do alcance de qualquer integradora, e o tema da proteção comercial e competitividade industrial já foi tratado aqui. A conta acima prova uma coisa só, e ela vale nos dois sentidos: eficiência de uma empresa não anula uma tarifa decidida por razão política. Nem a minha, nem a de ninguém.

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