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Reindustrialização: o discurso e os treze robôs

Reindustrialização: o discurso e os treze robôs

Por: Hugo Ferreira | Diretor da PMA Automação Industrial · Presidente da Câmara de Tecnologia e Inovação da ACIC

Reindustrialização virou palavra de consenso. Aparece em programa de governo, em discurso de entidade setorial e em plano plurianual. É rara a tese econômica com tanta concordância aparente e tão pouco resultado medido.

Então vale confrontar a palavra com um número. Fora do setor automotivo, a indústria brasileira opera com cerca de treze robôs para cada dez mil trabalhadores. A média mundial está perto de 141. Alemanha e Coreia do Sul passam de 300.

Produtividade não é consequência de proteção

O debate sobre reindustrialização costuma se organizar em torno de tarifa, câmbio e conteúdo local. São instrumentos legítimos e têm seu lugar. Mas nenhum deles produz produtividade. Eles alteram preço relativo.

Uma indústria protegida e improdutiva continua improdutiva, com margem maior e sem pressão para investir. O resultado aparece no produto mais caro para o consumidor nacional e na impossibilidade de exportar. Proteção compra tempo; só investimento converte tempo em competitividade.

E investimento em automação é a forma mais direta de converter. Não porque robô seja mágico, mas porque é o que estabiliza processo, reduz refugo e permite custo previsível.

Três incoerências que valem nomear

O bem de capital é tributado como bem de consumo. A máquina que aumenta produtividade carrega carga comparável, em etapas da cadeia, à de produto final. Taxar o equipamento e depois criar programa para subsidiar sua compra é um circuito que gera trabalho administrativo e pouco investimento líquido.

O incentivo tem prazo menor que a decisão. A depreciação acelerada reduz de 25 para 2 anos a dedução de máquina nova. A segunda fase tem R$ 3 bilhões divididos entre dois exercícios e vence em dezembro de 2026. Um projeto industrial leva de seis a dezoito meses só para ser decidido. Incentivo que expira antes de o processo de decisão terminar alcança quem já havia decidido e não induz decisão nova.

A política monetária anula a política industrial. Com Selic em 15%, o custo de oportunidade do capital derruba a maior parte dos projetos na planilha. Os investimentos em máquinas acumulam queda de 12,5% no ano. São duas políticas públicas em direções opostas, e a que atua sobre todas as empresas vence a que atua sobre algumas.

O que eu defenderia no lugar

Previsibilidade vale mais que generosidade. Uma regra estável e modesta de tratamento do bem de capital move mais investimento que um programa generoso com data de validade, porque entra no plano de dez anos da empresa. Nenhum diretor industrial coloca no plano plurianual um benefício que pode não existir no ano seguinte.

Segundo: tratar formação técnica como infraestrutura. O SENAI-MG mantém mais de cinco mil vagas abertas porque a demanda industrial por mecatrônica, eletrotécnica e automação não é atendida. Máquina comprada sem quem opere vira ativo ocioso, e isso não se resolve com crédito.

Terceiro: medir. Não existe, que eu conheça, um levantamento público consolidado sobre nível de automação da indústria mineira por setor e porte. Política desenhada sem esse dado é política desenhada sobre impressão.

Uma ressalva honesta

Sou diretor de uma integradora de automação. Defender investimento em automação é defender o meu mercado, e seria desonesto não dizer isso.

Mas a assimetria entre treze e cento e quarenta e um robôs por dez mil trabalhadores não é opinião, é medição da Federação Internacional de Robótica. E ela explica, melhor que a maioria das teses em circulação, por que o produto industrial brasileiro custa o que custa.

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