Robôs industriais no Brasil: a alta de 38% veio de um setor só
Por: Hugo Ferreira | Diretor da PMA Automação Industrial · Presidente da Câmara de Tecnologia e Inovação da ACIC Os robôs industriais no Brasil tiveram um 2025 de manchete. O relatório World Robotics 2026, da Federação Internacional de Robótica (IFR), divulgado em 24 de setembro, registra quase 4.300 unidades instaladas no país, alta de 38%. A manchete é boa. A conta embaixo dela, menos. O mesmo relatório informa que a indústria automotiva instalou quase 2.100 desses robôs, um salto de 212%, e atribui o movimento, nas palavras da própria IFR, “muito provavelmente” aos investimentos de montadoras chinesas no país.
A conta dos robôs industriais no Brasil fora do automotivo
A IFR não publica, no material aberto, quantos robôs o Brasil instalou fora do automotivo, nem quantos instalou em 2024. Dá para chegar lá com os números dela. Se 4.300 correspondem a alta de 38%, o país instalou cerca de 3.116 robôs em 2024. Se 2.100 correspondem a alta de 212%, o automotivo instalou cerca de 673. Fora dele, portanto, foram cerca de 2.443 robôs em 2024 e cerca de 2.200 em 2025. Queda de aproximadamente 10%. Refiz a conta com as margens de arredondamento, “quase 4.300” pode ser 4.250, 38% pode ser 37,5%. E a queda fica entre 8% e 11% em todas as combinações. Não é efeito de arredondamento. Dito de outro jeito, que é o mesmo fato e não uma prova adicional: o país instalou cerca de 1.184 robôs a mais, e o automotivo, sozinho, cerca de 1.427 a mais.
O que esse número não autoriza dizer
Antes de interpretar, quatro limites, e eles pesam. O primeiro é de definição. Na estatística da IFR, “automotivo” reúne montadoras e fabricantes de componentes. Parte dos 2.100 pode estar em autopeças, que não são só chinesas nem só grandes. O recorte correto é “fora do automotivo”, não “fora das montadoras”. O segundo é a categoria de setor não especificado, usada quando o fornecedor não informa o cliente final. Ela está dentro dos 2.200, eu não sei quanto pesa no Brasil e não sei se mudou de um ano para o outro. Por isso não dá para dizer se caiu mais a metalmecânica ou a indústria de alimentos. Dá para dizer que, somadas, caíram. O terceiro é a escala. Robô entra em lote: um único projeto grande em 2024 explicaria boa parte das 240 unidades de diferença. E a IFR revisa o ano anterior a cada edição, então o 2024 embutido nos 38% pode não ser o publicado no ano passado. O quarto é que é um ano só. Com isso, “a indústria média encolheu” seria afirmação forte demais. A afirmação que se sustenta é mais modesta: o crescimento de 2025 não veio dela.
A primeira explicação que eu daria, e por que ela não basta
Minha resposta automática seria o custo do dinheiro. A Selic subiu de 12,25% para 15% ao longo de 2025, e uma metalúrgica de 150 funcionários decide investimento com crédito a juro brasileiro, enquanto uma montadora estrangeira decide com o custo de capital do grupo. Mas o dado não colabora tanto. Segundo a Abimaq, conforme noticiado em janeiro, o consumo aparente de máquinas e equipamentos cresceu 7,9% em 2025. E a depreciação acelerada da Lei 14.871/2024 valeu para máquinas adquiridas até dezembro de 2025, ainda que limitada a setores definidos em decreto e a um teto de renúncia. Ou seja: no mesmo ano, a indústria comprou mais máquina, tinha um incentivo fiscal disponível e instalou menos robô fora do automotivo. Juro alto não explica sozinho essa diferença. Na minha leitura, o que explica melhor são três coisas que pesam mais sobre o robô do que sobre a máquina comum. Preço relativo. O robô é cotado em moeda forte e compete com salário industrial baixo em reais. Essa é a objeção séria à automação no Brasil, e ela é racional: em muitas operações, a conta de custo total de propriedade da célula robotizada perde para a mão de obra. Não é atraso cultural. É aritmética. Mix e lote. Montadora repete a mesma solda milhões de vezes. A indústria média troca de produto toda semana, e a engenharia para tornar uma célula flexível encarece o projeto justamente onde o volume é menor. Planta nova contra planta antiga. Quem monta fábrica escolhe o layout com o robô dentro. Quem já opera precisa parar produção, mexer em fundação e refazer painel. É a automação em planta antiga, outro custo e outro risco.
O que o caso automotivo ensina
Na primeira versão deste texto eu escrevi que o salto de 2025 foi decidido por razões alheias ao ambiente de negócios brasileiro. Retiro. As montadoras chinesas vieram também por política brasileira: o imposto de importação de veículos elétricos subiu de 10% em 2024 para 35% em julho de 2026, há o programa Mover e há incentivos estaduais. Isso pode ser lido de dois jeitos, e eu não vou fingir que a disputa está resolvida. Para quem defende política industrial, é a prova de que instrumento setorial move a curva. Para quem desconfia dela, é crescimento induzido por proteção, que pode não sobreviver ao fim do incentivo. O que os dois lados deveriam aceitar é que o número de 2025 descreve uma política setorial, e não o estado da indústria brasileira.
O que eu peço, e o que não peço
Eu vendo automação industrial. Um texto que diz que a indústria média instala pouco robô é também um vendedor reclamando do mercado. Desconte isso. Por isso não vou terminar pedindo estímulo. Se a indústria média faz a conta e a conta não fecha, subsidiar a conta é transferir dinheiro público para quem vende robô, e eu sou parte interessada nisso. O que peço é mais barato: medição. Hoje é preciso derivar por subtração o que deveria estar publicado, instalações por setor e por porte de empresa, com série histórica. Sem isso, qualquer política, horizontal ou setorial, decide no escuro, e eu mesmo fui obrigado a escrever quatro parágrafos de ressalva para um número que deveria ser um dado. A densidade robótica da indústria brasileira já era baixa fora do automotivo. Os robôs industriais no Brasil cresceram em 2025 porque um tipo específico de investimento chegou. A indústria que já estava aqui, somada, instalou menos. Enquanto essa segunda frase não mudar, a primeira é uma boa notícia sobre um setor, não sobre a indústria.


