Sua fábrica nunca automatizou: por onde começar — e por onde não
Por: Hugo Ferreira | Diretor da PMA Automação Industrial · Presidente da Câmara de Tecnologia e Inovação da ACIC
O primeiro projeto de automação de uma empresa carrega um peso que os seguintes não têm: ele decide se haverá um segundo. Quando dá certo, destrava orçamento por anos. Quando dá errado, a palavra “robô” fica queimada na diretoria por uma década.
Por isso a escolha da primeira operação importa mais que a escolha do fornecedor ou da marca do robô.
Por onde não começar
Pela operação mais difícil. É tentador atacar o maior gargalo, que normalmente é também o processo mais complexo, com maior variação de peça e menor repetibilidade. É o caminho mais curto para um primeiro projeto frustrante.
Pela operação que depende do melhor operador. Se uma tarefa só sai bem com o funcionário mais experiente, ela tem variáveis que ainda não foram mapeadas. Automatizar o que não se consegue descrever com precisão é transferir para o robô um problema que ainda é do processo.
Por onde a peça muda toda semana. Alta variedade com lote pequeno é possível de automatizar, mas é projeto de segundo ou terceiro nível, com dispositivo flexível e troca rápida. Como estreia, multiplica o risco.
Pelo que impressiona na visita. Já vi empresa escolher a operação mais visível da fábrica, aquela que o cliente vê ao entrar. É critério de marketing aplicado a decisão de engenharia, e costuma custar caro.
Por onde começar
A primeira operação ideal tem quatro características, e elas raramente coincidem com o maior gargalo.
Volume alto e peça estável. O mesmo item, repetido muitas vezes, com desenho que não muda há tempos. É o cenário em que o robô é claramente superior e a conta fecha rápido.
Processo já descrito. Se existe procedimento escrito, parâmetro definido e critério de qualidade mensurável, metade do trabalho de especificação está pronta. Se não existe, esse é o verdadeiro primeiro projeto — e ele não envolve robô nenhum.
Dor reconhecida por quem opera. Operação insalubre, repetitiva ou que ninguém quer fazer tem a resistência interna mais baixa. Automação enfrenta ceticismo de chão de fábrica, e começar por onde o próprio time quer ajuda mais do que qualquer apresentação.
Fora do caminho crítico. Se durante o comissionamento a operação parar, a fábrica não pode parar junto. Todo start-up tem ajuste, e o primeiro tem mais. Reservar essa margem é o que permite fazer certo em vez de fazer rápido.
O trabalho que vem antes do orçamento
A pergunta que chega com mais frequência é “quanto custa uma célula robotizada”. É uma pergunta sem resposta útil, porque o preço varia com o alcance do robô, a carga, o processo, o dispositivo e o nível de segurança exigido. E porque o preço de aquisição é a menor parte do que a célula vai custar.
A pergunta que leva a algum lugar é outra: qual o tempo de ciclo atual dessa operação, qual a taxa de refugo, e quanto de hora extra ela consome por mês?
Esses três números costumam não existir de forma confiável. Descobrir isso já é resultado. Boa parte das empresas que me procuram para automatizar precisa, primeiro, medir — e não é incomum que a medição revele que o gargalo estava em outro lugar.
Já aconteceu de um levantamento mostrar que o problema não era a velocidade da solda, mas o tempo de setup entre lotes, resolvível com dispositivo de fixação que custou uma fração de uma célula. Perdemos a venda maior e ganhamos um cliente, o que no acumulado foi melhor negócio.
Expectativa realista de prazo
Entre a decisão e a célula produzindo, conte de seis a doze meses para um primeiro projeto: levantamento, projeto, fabricação, montagem, comissionamento e ajuste fino. Prazos menores existem em célula padronizada com peça simples.
O erro comum é planejar a entrada em produção para a mesma data em que o contrato de um cliente novo começa. Quando o projeto atrasa — e o primeiro atrasa —, a empresa entra em operação emergencial com a célula não estabilizada, e a conclusão que fica registrada é que automação não funciona.
Uma coisa que vale decidir antes
Antes de assinar qualquer coisa, defina quem na sua equipe vai ser o dono técnico da célula. Não o patrocinador do projeto na diretoria — a pessoa que vai conhecer o equipamento, aprender a programar e ser o primeiro a atender quando ele parar.
Se essa pessoa não existir, o projeto vai funcionar enquanto o integrador estiver presente e vai degradar depois. É o mesmo problema de depender de uma qualificação que o mercado não entrega, deslocado para outra função. É o padrão mais previsível que observo, e o mais fácil de evitar: basta decidir antes, e dar a ela tempo para acompanhar a montagem.
Automação não é equipamento que se compra e se instala. É capacidade que a empresa passa a ter. Quando ninguém internamente assume essa capacidade, o que foi comprado é só uma máquina cara com um robô dentro.