O soldador que você não encontra: o custo da vaga aberta há seis meses
Por: Hugo Ferreira | Diretor da PMA Automação Industrial · Presidente da Câmara de Tecnologia e Inovação da ACIC
A pergunta que mais escuto em visita técnica não é sobre robô. É sobre gente — quase sempre sobre o soldador qualificado que a empresa não consegue contratar.
Um gerente de produção me descreveu a rotina: abriu vaga de soldador qualificado em janeiro, entrevistou onze candidatos ao longo do ano, contratou dois, perdeu um no terceiro mês para um concorrente que pagou mais. O segundo turno roda desfalcado desde então. A planta entrega, mas entrega com hora extra e com retrabalho que ninguém contabiliza direito.
Não é caso isolado. O SENAI-MG mantém mais de 5 mil vagas abertas em cursos técnicos para tentar dar conta da demanda industrial do estado, e as ocupações mais difíceis de preencher são justamente as de automação industrial, mecatrônica, eletromecânica e eletrotécnica. A entidade aponta que 92,4% das empresas dão preferência a quem foi formado por ela — o que diz menos sobre o SENAI e mais sobre a escassez de alternativa.
A conta que não é feita
Quando uma empresa avalia automatizar uma operação de solda, ela compara o custo da célula com o custo do soldador. Salário, encargos, turno. É a conta óbvia, e é incompleta.
O que raramente entra:
O custo da vaga aberta. Seis meses sem o segundo soldador não custa zero — custa a produção que o turno não fez. Numa operação gargalo, isso é faturamento que não existiu, e não aparece em nenhuma linha do orçamento porque nunca foi lançado.
O custo da variabilidade. Dois soldadores humanos produzem cordões diferentes. Isso é normal e não é demérito. Mas significa que o setor de qualidade gasta tempo medindo, e que parte do refugo é atribuída a processo quando é variação de mão.
O custo do turnover. Formar um soldador para a especificidade da sua peça leva meses. Quando ele sai, o relógio reinicia. Em região com concorrência por mão de obra qualificada — e a região metropolitana de Belo Horizonte é uma —, esse ciclo se repete.
Onde eu discordo do discurso de venda
Aqui preciso ser honesto, porque o argumento que acabei de fazer é o que todo vendedor de automação usa — inclusive os da minha própria empresa.
Robô não resolve falta de gente. Ele muda qual gente você precisa.
Uma célula robotizada elimina a necessidade de um soldador no posto e cria a necessidade de alguém que programe, opere e faça a manutenção dela. Essa pessoa é mais rara que o soldador, não menos. E custa mais. É um dos itens que não aparecem no payback de catálogo.
Quem automatiza imaginando reduzir dependência de pessoal qualificado vai descobrir, no sexto mês, que trocou a dependência de um soldador pela dependência de um técnico em automação — e que o técnico tem ainda mais propostas no mercado.
O ganho real é outro: a célula não falta, não pede demissão, repete o mesmo cordão no turno da madrugada e permite que o soldador experiente, que você tem e quer manter, seja deslocado para a peça complexa que o robô não faz bem. Isso é um ganho de alocação, não de redução de pessoal. É menos sedutor no slide e mais verdadeiro na planta.
O custo que não entra na proposta
Há um item que, por omissão do setor, raramente aparece orçado: a formação de quem vai operar.
Treinamento de operação costuma vir na proposta como um bloco de poucas horas no comissionamento. É suficiente para ligar e rodar o programa que foi entregue. Não é suficiente para criar alguém capaz de ajustar parâmetro, recuperar a célula de uma parada e programar uma peça nova.
Essa competência leva meses e exige que a empresa aceite deixar alguém aprender errando — com a célula parada enquanto aprende. Quando esse custo não é discutido na contratação, ele reaparece seis meses depois como insatisfação com o fornecedor. É uma das perguntas que vale fazer antes de assinar com qualquer integradora.
É um ponto que a minha categoria tem interesse em não levantar, porque engorda o valor percebido do projeto. Levantar é o que separa fornecedor de parceiro técnico.
O que fazer antes de cotar
Antes de pedir proposta, vale medir duas coisas que já estão na sua planta.
Primeiro, quanto tempo a vaga qualificada fica aberta, em média, nos últimos dois anos. Esse número costuma ser mais alto do que o RH informa de memória.
Segundo, quanto do seu refugo tem origem em variação de processo manual. Qualidade normalmente sabe, mas o dado raramente é apresentado em reais.
Com esses dois números, a conversa sobre automação deixa de ser sobre substituir pessoa e passa a ser sobre estabilizar uma operação que hoje depende de um recurso que o mercado não entrega. É uma discussão melhor, e leva a decisões melhores — inclusive, em vários casos, à decisão de não automatizar ainda.