Inteligência Artificial na Exploração Mineral
A utilização de inteligência artificial (IA) para mitigar riscos e acelerar a descoberta de depósitos minerais críticos foi o tema central da palestra de Geneviève Marquis, diretora executiva do Serviço Geológico do Canadá (GSC), no evento SIMEXMIN 2026. Durante sua apresentação, Marquis destacou a importância da colaboração entre o Canadá e o Brasil para ampliar a capacidade de descoberta mineral, em resposta à crescente demanda global por matérias-primas essenciais para a transição energética.
O Papel da Inteligência Artificial
Segundo Marquis, a meta da parceria é implementar inteligência artificial, ciência de dados e mapeamento preditivo para tornar a exploração mineral mais eficiente e ágil. “O foco é não apenas reduzir os riscos, mas também acelerar a descoberta de novos depósitos minerais”, afirmou.
O Canadá atualmente possui uma lista de 34 minerais críticos, dos quais seis são considerados prioritários pelo Serviço Geológico Canadense: cobalto, cobre, grafita, lítio, níquel e elementos terras raras. No entanto, essa lista está em constante evolução, refletindo as rápidas mudanças tecnológicas na indústria de baterias.
“Hoje sabemos que a grafita será necessária, mas há a possibilidade de que o lítio seja substituído por outro elemento. Estamos em uma corrida tecnológica para identificar o ingrediente ideal para a super bateria”, explicou.
A Cultura de Inteligência Artificial no Canadá
Marquis enfatizou que o Canadá tem promovido uma cultura institucional voltada para a inteligência artificial, especialmente após a implementação de políticas federais específicas sobre o tema. Todos os departamentos governamentais estão incorporando a IA em suas operações.
“No Canadá, a inteligência artificial não é apenas uma ferramenta; ela representa uma cultura. É a forma como estamos interpretando nossa realidade e formulando novas perguntas aos dados que coletamos”, declarou.
O Serviço Geológico do Canadá possui vantagens estratégicas para o desenvolvimento dessas aplicações, incluindo uma robusta capacidade computacional, infraestrutura em nuvem e um dos maiores acervos de dados geológicos abertos do país. O órgão conta com cerca de 500 cientistas distribuídos em sete unidades de pesquisa e mantém uma coleção com mais de 30 milhões de amostras geológicas.
Programas Inovadores e Financiamento
Em 2022, o governo canadense lançou o programa Critical Minerals Geoscience and Data, com foco em pesquisas orientadas por dados e inteligência artificial, recebendo aproximadamente US$ 20 milhões anuais em financiamento. “O conceito central é ser orientado por dados. Trabalhamos com sistemas baseados em conhecimento, geociência preditiva e avaliação de mercado”, detalhou Marquis.
Colaboração Internacional: A Parceria com o Brasil
A palestrante enfatizou repetidamente a importância da colaboração internacional, especialmente com o Serviço Geológico do Brasil (SGB). Canadá e Brasil partilham características geológicas semelhantes, como escudos pré-cambrianos e uma alta concentração de minerais críticos.
“O Brasil é um componente-chave da nossa estratégia. Estamos aprendendo muito com o SGB”, afirmou. Ela ressaltou que a integração de dados geológicos entre os dois países pode aprimorar os modelos de inteligência artificial voltados para a prospecção mineral. “Combinando nossos dados, aumentamos a capacidade dos nossos modelos de IA. Quanto mais dados forem integrados, mais robustos se tornam os modelos”, acrescentou.
Deep Learning e Mapeamento Preditivo
Durante a apresentação, Marquis destacou as pesquisas desenvolvidas em colaboração com o Mila Institute, um centro canadense de referência em deep learning. O instituto passou a colaborar com o Serviço Geológico Canadense em projetos de mapeamento geológico e caracterização do subsolo com o apoio da IA.
“Estamos aplicando deep learning para melhorar o mapeamento geológico, utilizando grandes volumes de dados geofísicos e sísmicos para aprimorar a resolução das interpretações do subsolo”, explicou.
Ela apresentou exemplos de pesquisas em sistemas minerais auríferos no Canadá, especialmente na região de Abitibi, onde técnicas de mapeamento 3D em alta resolução têm sido utilizadas para acelerar a descoberta de ouro.
Reaproveitamento de Rejeitos Minerais
Outro ponto abordado foi o potencial de reaproveitamento de rejeitos minerais históricos como fonte de minerais críticos. Marquis citou pesquisas realizadas em minas desativadas próximas à capital canadense, que demonstraram a viabilidade de recuperar fosfato e elementos terras raras presentes em resíduos de mineração.
“Isso não é apenas uma teoria. Funciona. Conseguimos recuperar 97% do fosfato e 75% dos elementos terras raras em alguns rejeitos minerais”, afirmou. Embora nem todos os depósitos de rejeitos sejam economicamente viáveis, alguns casos demonstram potencial significativo para a recuperação de minerais estratégicos.
Conclusão: A Necessidade de Cooperação Internacional
Ao encerrar sua palestra, Marquis reiterou que a cooperação internacional será essencial para aumentar a competitividade na corrida global pelos minerais críticos. “Brasil e Canadá têm muito em comum. Precisamos compartilhar dados, metodologias de inteligência artificial e trabalhar juntos para vencer a corrida pela descoberta de minerais críticos”, concluiu.


