A Mineração na Era da Transição Energética
A mineração deixou de ser tratada como um setor isolado e passou a ocupar um papel central na agenda global de transição energética, descarbonização e transformação industrial. Essa mudança de paradigma foi evidenciada por Tiago Toscano, CEO da Itaminas, durante sua participação no 3º Brazil Lithium & Critical Minerals Summit 2026, realizado em Belo Horizonte. O evento, que inicialmente focava apenas no lítio, agora abrange uma gama mais ampla de minerais críticos e estratégicos, refletindo a crescente importância da mineração nas discussões sobre desenvolvimento sustentável.
Toscano destacou uma contradição que permeia o debate público: a demanda crescente por um mundo com baixas emissões de carbono e a resistência social à atividade mineral. Ele afirmou: “Existe uma contradição onde as pessoas querem um mundo mais verde, mais limpo, mas querem menos mineração. Isso não tem como acontecer.” Essa afirmação ressalta a necessidade de reavaliar como a sociedade enxerga a mineração e sua contribuição para um futuro sustentável.
Minério de Ferro e a Base da Transição Energética
Em sua análise, Toscano defendeu a relevância estratégica do minério de ferro dentro da agenda de descarbonização da indústria siderúrgica global, especialmente na produção de aço com menor pegada de carbono. Ele enfatizou que a mudança geográfica das cadeias globais demanda investimentos em minério de maior teor e qualidade, capazes de atender às exigências mais rigorosas dos mercados internacionais.
A estratégia da Itaminas, segundo Toscano, envolve um ciclo de investimentos de longo prazo para modernização de suas plantas, aumento da eficiência e adequação dos produtos às exigências globais. Essa estratégia inclui a diversificação de soluções tecnológicas, incorporando inteligência artificial e modernizando processos industriais. A reestruturação ferroviária, por exemplo, visa reduzir impactos ambientais e aumentar a eficiência operacional.
Do ponto de vista de mercado, o executivo destacou que o minério de ferro de maior qualidade tende a capturar um prêmio em segmentos mais exigentes, especialmente aqueles ligados à transição energética. Nesse cenário, o Brasil se posiciona de maneira relativamente favorável, principalmente em termos de estabilidade regulatória, em comparação com outras regiões produtoras.
Ele argumentou que, enquanto países desenvolvidos reduziram significativamente sua capacidade de mineração nas últimas décadas, a produção global migrava para regiões como América Latina, África e Ásia, tornando o Brasil um dos ambientes mais estáveis nesse novo arranjo.
Legitimidade no Território
Além da dimensão industrial, Toscano enfatizou a necessidade de redefinir a relação da mineração com os territórios onde atua. O debate não deve se concentrar apenas na licença social para operar, mas sim em um modelo de legitimidade construído junto às comunidades. Ele afirmou: “Mais do que licença para operar, o desafio é construir legitimidade. É fazer com que a comunidade reconheça que a mineração faz parte da construção do território junto com ela.”
Nesse contexto, Toscano mencionou iniciativas desenvolvidas pela Itaminas em parceria com o poder público e comunidades locais. Essas iniciativas envolveram um processo participativo de planejamento territorial que resultou em uma carteira de projetos alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
“Esse modelo de construção coletiva resultou na estruturação de mais de 300 propostas comunitárias, que foram posteriormente consolidadas em uma carteira de aproximadamente 120 projetos, abrangendo áreas como educação, infraestrutura social, sustentabilidade e inovação urbana”, explicou Toscano.
A Itaminas apresentou esse modelo de desenvolvimento sustentável em colaboração com o município de Sarzedo (MG) durante o 10º Fórum Internacional de Parcerias Público-Privadas da UNECE, um órgão vinculado à ONU. No evento, a companhia compartilhou sua experiência na construção do Relatório Voluntário Local (RVL), um instrumento alinhado aos 17 ODS da Agenda 2030, usado como base para o planejamento de longo prazo do município.
O modelo abrange projetos urbanos, ambientais e sociais estruturados dentro da metodologia dos ODS, além de um plano diretor que orienta o desenvolvimento da cidade até 2035. As iniciativas são acompanhadas por uma plataforma digital aberta, permitindo que a população consulte o andamento das ações e proponha novas iniciativas.
A proposta apresentada no fórum exemplifica a integração entre mineração, poder público e planejamento urbano de longo prazo, reforçando uma abordagem de desenvolvimento territorial baseada em governança compartilhada e transparência. Essa visão inovadora não apenas contribui para a sustentabilidade da mineração, mas também para o fortalecimento das comunidades locais, criando um ciclo virtuoso de desenvolvimento.
À medida que a mineração se torna cada vez mais essencial na transição energética, é fundamental que as empresas do setor adotem práticas que promovam a aceitação social e a legitimidade em suas operações. O futuro do setor dependerá de sua capacidade de integrar a mineração com as demandas sociais e ambientais da atualidade.


