Saiu nesta semana uma série de matérias sobre o Brasil despencar no ranking mundial de crescimento industrial, e em todas aparecia o mesmo dado: a produção de bens de capital caiu 5,3% no ano até agosto, única grande categoria no vermelho.
O número é real. Está na tabela 8887 do IBGE e eu conferi. Ele também não mede o que a semana disse que media, por dois motivos independentes. Descobri os dois tentando publicar um erro maior.
O que eu quase publiquei
A categoria tem duas metades: equipamentos de transporte industrial, em +0,9% no ano, e todo o resto, em -7,4%. Minha primeira versão dizia que esse -7,4% era a máquina que entra na fábrica (prensa, torno, robô) e que o caminhão segurava a média.
Antes de publicar, fui abrir. A tabela 8889, que quase ninguém usa, separa bens de capital por destino:
| Por destino (acum. jan-ago/2026) | Variação |
|---|---|
| Agrícolas | -22,8% |
| Uso misto | -16,6% |
| Peças agrícolas | -15,9% |
| Para fins industriais | -2,5% |
| Para construção | +3,6% |
| Para equipamentos de transporte | +1,9% |
| Para energia elétrica | +1,0% |
A máquina que entra na fábrica não caiu 7,4%. Caiu 2,5%. O que caiu 22,8% foi o trator. A Abimaq confirma por fora, com faturamento de máquinas agrícolas em queda de 21,6% até setembro, por endividamento do produtor rural.
Eu ia publicar, com número do IBGE e tudo, uma frase que descrevia a crise do agronegócio como paralisia do investimento industrial. Como vendo automação, era uma frase que me convinha: fábrica em crise é urgência, e urgência vende projeto.
O mesmo teste, no número que me agrada
Dentro de fins industriais, o equipamento seriado, o de catálogo, está em -3,4% no ano, e o não seriado, projetado para uma aplicação, está em +5,2%, segundo ano seguido de alta. Escrevi que era a linha mais próxima do que uma integradora entrega e parei aí, porque o número me agradava.
Então fui ver o nível, o teste que eu tinha acabado de aplicar ao -7,4%:
| Índice, agosto de cada ano | 2022 | 2023 | 2024 | 2025 | 2026 |
|---|---|---|---|---|---|
| Seriados | 108,2 | 106,1 | 113,3 | 107,7 | 106,7 |
| Não seriados | 109,3 | 92,7 | 89,7 | 89,4 | 91,5 |
Em nível, a ordem se inverte. O seriado está praticamente onde estava em 2022; o não seriado, 16% abaixo. Os dois anos de alta recompõem uma fração do tombo de 18,8% de 2023. “Crescendo pelo segundo ano seguido” é verdade e é enganoso: sobe de um buraco.
E registro o que não consigo verificar: “não seriados” carrega encomenda de grande porte, e uma ordem única move o índice. Nesta série eu não isolo automação industrial. Ela não prova nada sobre a minha carteira, e eu tenho interesse em que provasse.
O segundo erro: produção de bens de capital não é compra
A PIM-PF mede produção física dentro do Brasil, não investimento. Investimento se mede por absorção, que é produção menos exportação mais importação, ou por formação bruta de capital fixo.
Aqui a diferença é enorme. Segundo nota técnica do Ministério da Fazenda, as importações de bens de capital e informática cresceram 33,4% desde 2022 e passaram de 45% do consumo nacional em dezembro de 2025. O Focus de 26 de outubro projeta câmbio a R$ 5,05, caindo.
Com real valorizado e importado cobrindo quase metade do consumo, a produção doméstica pode cair enquanto o investimento sobe. A fábrica pode ter comprado máquina chinesa.
Então “bens de capital caiu 5,3%, logo a indústria parou de investir” falha duas vezes: o agregado é agrícola, e o indicador é de produção, não de compra.
O número que sobra em pé
A Carta Iedi n. 1382, de 26 de outubro, traz o dado estrutural: no segundo trimestre de 2026 o Brasil ficou em 62º entre 87 países em crescimento da indústria de transformação. No mesmo trimestre de 2024 era 28º. Cresceu 0,5% contra o ano anterior; o mundo, 3,7%. A Carta chama de “sete vezes mais rápido”. O múltiplo é correto e inflado, porque com denominador perto de zero qualquer razão explode. O que importa são os 3,2 pontos percentuais.
Mais relevante é onde o mundo cresceu. Em cinco anos, os setores de média-alta e alta intensidade tecnológica avançaram 22,2% contra 5,3% nos demais; no último trimestre, computadores e eletrônicos subiram 13,3%. Rafael Cagnin, economista-chefe do Iedi, nota que esses ramos “são sub-representados na estrutura da produtividade brasileira”.
No Brasil, a produção de bens de capital para informática e eletrônicos está em -19,3% no ano. A série é volátil, de -27,8% a +3,5% em catorze meses, então ninguém deveria tratar isso como medida fina. O que não é ruído é a persistência: treze dos últimos catorze meses foram negativos. A magnitude é imprecisa; a direção, não.
E a ressalva do indicador vale aqui também: esse ramo se equipa importando, então o número não mede o capex do setor. Mede que não fazemos a máquina dele, e que, tendo elevado a tarifa de importação desse equipamento em fevereiro, também não facilitamos quem a compra.
Duas leituras do mesmo fato
Esse -19,3% caiu no ano em que o governo elevou o imposto de importação de cerca de mil produtos, máquinas industriais e informática incluídas, pela Resolução Gecex 852, para conter importação que, segundo a Fazenda, ameaçava “colapsar elos da cadeia produtiva”. Em março o Gecex zerou a tarifa de uns 200 desses itens por quatro meses.
Submeti o texto a dois economistas de campos opostos, e eles leram a mesma medida de formas incompatíveis.
Para a leitura desenvolvimentista, a tarifa é defesa legítima: entrar em alta tecnologia é problema de coordenação, não de planilha, e o retorno de quem entra primeiro é menor que o social. Falta política industrial e crédito longo. E máquina aqui nunca se financiou à Selic: ela se financia por Finame indexado à TLP.
Para a leitura liberal, a tarifa é o problema: proteger quem fabrica a máquina encarece a máquina de quem a compra, e alta tecnologia é cadeia global que não se instala onde se taxa componente. Ex-tarifário rápido faria mais que incentivo sobre lucro, e sem renúncia.
Os dois concordaram numa coisa, e é a que eu levo: um acumulado de oito meses não decide essa disputa. E foi esse acumulado que virou manchete.
O que eu faria com isso agora
Primeira: corrigir o que eu andava dizendo sobre taxa. Eu já escrevi que o projeto se decide “pelo custo por peça, não pelo custo do dinheiro”. Os dois críticos derrubaram pelo mesmo motivo, e têm razão: não são alternativas. O custo por peça faz o fluxo, a taxa desconta o fluxo; escolher um “em vez” do outro é esconder a taxa. E a Selic de 13,75% não é a barreira, é o piso. Descontada da inflação esperada de 4,34% para 2027, dá juro real perto de 9%, e a barreira real soma a isso prêmio de risco, de iliquidez e de execução. Projeto que “fecha a 13,75%” provavelmente não fecha.
Segunda: aceitar que há projeto que não deve ser feito. Com a transformação em -0,1% no ano e capacidade ociosa, economia por peça multiplica um volume que não existe. Essa é a parte que me custa: alguns dos meus clientes que estão esperando estão certos em esperar, e nenhuma conta resolve ausência de demanda.
Terceira: tratar incentivo como caixa, não como retorno. A depreciação acelerada vence em dezembro e o crédito integral de ICMS do artigo 108 muda o caixa da aquisição. Nenhum cria retorno: antecipam dinheiro. Rode o payback sem o incentivo. Se fecha, o incentivo melhora o momento de decidir; se só fecha com ele, é a mesma aposta em cenário de quem espera corte de juro, com prazo mais curto e parâmetro menos previsível. Eu dizia que a vantagem era “não depender do Copom”. Não passa na minha régua: a dependência só migrou para Receita e Confaz. E os dois são renúncia: alguém paga, e quem paga é o primário que sustenta a taxa que eu uso como barreira acima.
Quarta, para mim: abrir o agregado antes de levá-lo a proposta. Ia publicar o -7,4% como queda do investimento industrial e o +5,2% como sinal do meu mercado. Nos dois casos a conta estava na mão.
Ressalva de método: o Iedi usa séries da Unido com ajuste sazonal e o IBGE normalmente compara sem ajuste, e a Carta avisa da diferença. E vale repetir que toda a produção de bens de capital citada aqui é produção, não investimento. Os números saem das tabelas 8887 e 8889 do Sidra, período 202608.
O dado que fecha não é o -5,3%, que é trator, nem o -2,5%, que é produção e não compra. É a direção do bem de capital para eletrônicos: treze meses negativos em catorze, num mundo que cresce 13,3% no ramo.
O trator volta quando o produtor desendividar. É dívida, e dívida se resolve. O outro não volta por ciclo: esse equipamento tem vida útil curta, se compra fora, e nós encarecemos a importação dele em fevereiro. Ninguém assina ativo de dez anos apoiado em parâmetro que vence em sessenta dias. E aí a política que eu mando usar acima é parte do problema que eu descrevo.


