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Setor de fertilizantes cobra previsibilidade para destravar investimentos e reduzir dependência externa

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Desafios e Oportunidades na Cadeia de Fertilizantes do Brasil

No cenário atual, os executivos das principais empresas de fertilizantes atuantes no Brasil enfatizam a importância de políticas de longo prazo e de uma maior previsibilidade regulatória como fundamentais para viabilizar investimentos que buscam reduzir a acentuada dependência do país em relação a insumos importados. Esta avaliação foi compartilhada durante o painel dedicado à cadeia de fertilizantes no Seminário Internacional de Minerais Críticos e Estratégicos, promovido pelo Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM).

Apesar de o Brasil possuir reservas minerais significativas e um mercado consumidor em expansão, além de ser uma das maiores potências agrícolas do mundo, os representantes do setor manifestaram que projetos de grande envergadura enfrentam desafios relacionados ao licenciamento ambiental, à insegurança jurídica e às deficiências logísticas.

“O Brasil possui três fatores cruciais que poucos países têm: um mercado consumidor crescente, reservas minerais atrativas e uma aptidão agrícola excepcional. Isso coloca o Brasil na posição de se tornar um dos maiores produtores de fertilizantes do mundo”, afirmou Warley José Gomes Pereira, diretor executivo de operações da EuroChem Salitre.

“Os investidores não têm objeções ao rigor, desde que exista previsibilidade ao longo do processo de licenciamento. A falta dessa previsibilidade gera uma aversão ao investimento”, complementou Pereira.

Dependência Externa e seus Riscos

Os executivos do setor alertaram que a concentração das importações em poucos fornecedores aumenta os riscos para o abastecimento nacional. Bonzi Yokomizo Baptista dos Santos, CEO da South Atlantic Potash (SAP), mencionou que cerca de 65% do potássio importado pelo Brasil provém da Rússia e Belarus, uma situação que se tornou crítica durante a guerra no Leste Europeu.

“Em 2022, devido à crise, o preço do potássio disparou de cerca de US$ 300 por tonelada para até US$ 1.200 por tonelada”, relatou Yokomizo. Henrique Oliveira, diretor sênior de projetos estratégicos da Mosaic, enfatizou que a dependência afeta outros insumos estratégicos, como o enxofre. “Atualmente, 92% do enxofre consumido no Brasil é importado, e cenários geopolíticos complexos complicam essa cadeia de importação”, disse.

Iniciativas para Aumentar a Produção Nacional

Durante o painel, diversas empresas apresentaram projetos inovadores que podem aumentar significativamente a oferta interna de fertilizantes. A Potássio do Brasil anunciou que o Projeto Autazes, localizado no Amazonas, prevê uma produção de 2,4 milhões de toneladas anuais de cloreto de potássio, o que pode gerar aproximadamente R$ 25 bilhões em tributos ao longo de sua vida útil e reduzir o tempo de entrega do produto aos centros consumidores de 120 para cerca de 10 dias.

A SAP também apresentou estudos para exploração offshore de silvinita em Sergipe, onde nove alvos identificados possuem um potencial estimado de 3,5 bilhões de toneladas do minério. A EuroChem destacou o progresso da operação integrada de Serra do Salitre (MG), que deverá alcançar sua capacidade nominal de produção de 1 milhão de toneladas de fertilizantes em 2027, após investimentos de aproximadamente US$ 1 bilhão.

A Stratos, que adquiriu os ativos de potássio da Mosaic em Sergipe, informou que trabalha para ampliar a vida útil da única mina brasileira em operação de cloreto de potássio. “Hoje, podemos afirmar com confiança que podemos operar essa mina até 2042, com potencial de extensão, baseado em estudos e desenvolvimento contínuo”, afirmou Mauro Lopes Cordeiro, diretor de operações da empresa.

Desafios do Licenciamento e Previsibilidade

Apesar do potencial dos projetos apresentados, os participantes do painel foram unânimes em identificar o ambiente regulatório como um dos principais obstáculos para novos investimentos. Bonzi Yokomizo destacou que o setor não busca uma flexibilização ambiental irresponsável, mas sim a previsibilidade nos processos. “A mineração deseja robustez aliada à previsibilidade”, declarou.

Warley José Pereira reforçou que a falta de previsibilidade afasta investidores internacionais. “O investidor está disposto a enfrentar rigor, mas a incerteza no processo de licenciamento causa aversão ao investimento”, afirmou.

Os executivos ressaltaram ainda que projetos de mineração requerem investimentos bilionários e ciclos de retorno que podem ultrapassar duas décadas, tornando a estabilidade regulatória um fator decisivo para a atração de capital.

A Construção de um Ecossistema Nacional

Além das questões regulatórias, os representantes da indústria defenderam uma articulação mais ampla entre governo, financiadores, produtores e consumidores para fortalecer a produção nacional de fertilizantes. Sergio Marcio de Freitas Leite, presidente da Potássio do Brasil, enfatizou que o país precisa construir um ecossistema que corrija o desequilíbrio entre a força do agronegócio e a fragilidade da produção de insumos.

“Somos uma potência mundial em termos de produção agrícola, mas ainda somos vulneráveis em relação a insumos básicos, que são tão essenciais quanto a geração de divisas que o país precisa”, destacou Leite.

Ele também ressaltou a necessidade de um maior apoio ao produto nacional, sugerindo que os consumidores devem dar uma atenção especial aos produtos locais, o que pode acelerar a redução desse desbalanceamento.

Consenso sobre o Potencial Brasileiro

Apesar dos desafios discutidos, o painel concluiu com uma avaliação convergente entre os participantes: a demanda por fertilizantes existe, os recursos minerais estão disponíveis, e há projetos em desenvolvimento que podem reduzir a dependência externa do país. “O que falta, na verdade, é avançar na produção”, resumiu Henrique Oliveira, da Mosaic.

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